Revista Eletrônica

de Psicologia

Ano I  Número 1

Julho de 2007

Periodicidade

 Semestral

 

 

 

Revista Científica de Psicologia

Coordenação Pedagógica do Curso de Psicologia do CESMAC

Maceió - Alagoas - Brasil

 

ISSN

1981-7371

 

 

FACES DO EFEITO PLACEBO [1]

FACES OF EFFECT PLACEBO

 

 

 

Louise Silva dos Santos

louise_apx@hotmail.com  

 

Graduando em Psicologia

Centro de Estudos Superiores de Maceió/ CESMAC

 

Prof. Liércio Pinheiro de Araújo, MSc.

liercio@cesmac.com.br

Coordenador do Curso de Psicologia da FCH/ CESMAC

e Orientador de TCC

 

RESUMO

 Placebo é uma substância inerte, ou cirurgia, que tenha um efeito sobre o estado de saúde da pessoa sem qualquer relação com uma substância medicinal ou uma terapia já comprovada. Ele também está sujeito a reações adversas, que são chamadas de efeito nocebo e estão diretamente relacionadas às expectativas negativas do paciente ante o tratamento. Os objetivos do uso do placebo na área médica são, principalmente, as pesquisas a cerca da eficácia de novos fármacos por meio de comparações. São muitas as especulações, havendo hipóteses de que seja psicológico e esteja atribuído ao perfil do paciente, suas crenças, sugestionabilidade e expectativas ante o tratamento. O papel exercido pelo médico também é de grande importância, como se verifica nos casos em que o paciente apresenta melhoras imediatas ao receber a visita do médico num quarto de hospital ou ao sair de uma consulta. Outra opinião, ainda na tentativa de encontrar explicação é que, na realidade, o que ocorre é que a natureza segue seu curso normal, mas mudanças químico-físicas ocorridas com o uso de placebos questionam a hipótese a cerca da remissão espontânea. A aprendizagem por reflexo condicionado é uma das teorias psicológicas que pode explicar o efeito placebo.

PALAVRAS – CHAVE: Placebo. Expectativas. Remissão espontânea. Condicionamento.

 

ABSTRACT

Placebo is a substance, or surgery, treatment that has an effect in the health of the person without any medicament or therapy proved. It is also connecting many situation, that we call effect nocebo. It connects to negative expectative of the patient with the treatment. The objectives of the placebo in the medicine are mainly the researches about new dugs efficiency using comparisons. There are many speculation, having hypotheses that been psychological or connecting to profile of the patient, its believes and expectative with the treatment. The work exercised with the doctors is of big importance too, as to check is the cases in that the patient shows instantaneous recovery when visited by the doctor in the hospital’s room or when get out of a consult. Other opinion is in the trying to explain the same phenomenon is that, in the nature is in it normal way, but changes chemistry – physic with the using of the placebos make questions about to leave free it reemission. The learning by reflex is one of the psychological theories that can explain the effect placebo.

KEY WORDS: Placebo. Expectations. Free remission. Conditioning.

 

FACES DO EFEITO PLACEBO

 

Várias são as faces do efeito placebo. Sua eficácia reconhecida e ainda inexplicável torna necessário estudá-las exaustivamente até que uma idéia nova possa esclarecer, com precisão, o que de fato ocorre. 

A intenção deste trabalho é revisar a bibliografia a cerca dos placebos, compactando conceitos e teorias, considerando, especialmente, aspectos relevantes à Psicologia e sua influência nas respostas à mesma substância.

As indústrias farmacêuticas vêm, cada vez mais, crescendo e superando suas próprias limitações. Porém, sua alta tecnologia utilizada nos estudos dos novos fármacos ainda não é suficiente para vencer o desafio persistente, que é explicar o efeito placebo e desenvolver medicamentos significativamente mais eficazes.

Com relativa freqüência são lançadas no mercado consumidor as novidades sobre os melhores tratamentos para as mais variadas patologias e as pessoas se submetem a estas novas terapias, considerando-as como alimento de suas esperanças, a fim de recuperar a saúde e poder mais uma vez ter a chance de fazer planos para o futuro. O desejo de serem curadas é tamanho, que são capazes até, de aderirem a tratamentos não comprovados, curandeirismos, pesquisas de ensaios clínicos, entre tantas outras modalidades de tratamento. Logo, este mesmo desejo e a busca pela cura atuam como parte de um tratamento, onde o que mais importa é ser cuidado e não a forma como se ministra esse cuidado ao paciente.

A relevância das pesquisas na área vai além do próprio placebo, pois na tentativa de verificar o fenômeno, milhares de pacientes no mundo inteiro são beneficiados. Até mesmo aqueles que já fazem o tratamento mais indicado, visto que os médicos, conhecendo todas as nuances de um fármaco, poderão explorar o possível o efeito placebo do mesmo remédio. Ou seja, em qualquer tratamento o efeito placebo poderá “potencializar” as respostas do paciente.

Desde a Antigüidade até a atualidade, a cura pela fé (em Deus, no médico ou no próprio remédio) não tem sido explicada de maneira a convencer toda a comunidade científica, mas desde a mesma época já é devidamente reconhecida como eficaz. O ato de medicar é milenar e esteve presente de alguma forma em todas as culturas, pois mesmo os povos mais antigos já tinham métodos terapêuticos empíricos que combatiam as mais diversas enfermidades. Exemplo exaustivamente utilizado na Idade Média foi o sangramento do paciente, que não tem a menor razão de cura, mas que de fato beneficiou muitos que acreditavam serem curados depois do doloroso processo e, ao que parece, realmente quanto maior o sofrimento causado pelo tratamento, maior a chance de se obter sucesso.

Um dos primeiros documentos sobre o efeito placebo data de 350 anos atrás. Conta-se que o rei Carlos II, da Inglaterra, curou cem mil pessoas durante seu reinado, simplesmente estendendo sua mão sobre elas. O poder do toque real diminuiu com a chegada da ciência, mas ainda 50 anos atrás, os médicos dispunham de poucos recursos para curarem seus pacientes.

Receitar um medicamento sujeita o paciente a vários efeitos diferentes, alguns diretamente relacionados à química do medicamento, sua ação farmacológica, outros, mais curiosos, nada têm a ver com a farmacologia, pois se verifica também sua presença diante do uso de substâncias farmacologicamente inativas, os placebos. (AMARAL; SABBATINI, 1999). Mas a verdade é que não há como saber, com precisão, até onde o resultado obtido se deu às substâncias farmacologicamente ativas nem a partir de quando elas deixaram de ser relevantes.

A palavra placebo muitas vezes sugere a imagem de feitiços, magia, histeria, mas normalmente quem faz este tipo de comparação não se dá conta de que possivelmente alguém já fez uso de um para acalmá-lo, ou ainda, não sabe que vários estudos mostram que, na verdade, qualquer medicamento está sujeito a um efeito placebo. É também por isso que ele tem ganhado cada vez mais espaço entre os cientistas, e, cada vez mais respeitado, suas repercussões e fisiologia despertam curiosidade na área.

O termo placebo deriva do verbo latino “placere”, que significa “agradar”. A maioria dos autores difere nas palavras[2], mas comunga da mesma essência na concepção do placebo, como sendo uma substância inerte, ou cirurgia, ou qualquer outra coisa que tenha um efeito sobre o estado de saúde da pessoa sem qualquer relação com uma substância medicinal ou uma terapia já comprovada. Ou seja, terapia sem qualquer propriedade farmacológica, ou ação específica nos sintomas ou doença do paciente, mas que, mesmo assim, causa alguma reação nele. No início dos estudos, a palavra placebo era atribuída apenas a substâncias de uso oral ou injetável, mas atualmente, também se denomina placebo a aplicação local de pomadas, cremes, passes, benzimentos, e muitas outras intervenções chamadas de medicina alternativa (BALLONE, 2005, Internet), mas isso será abordado mais à frente.

O médico deve, necessariamente, ter perspicácia quanto ao caso clínico em que poderá utilizar os benefícios do uso do placebo, considerando a sugestionabilidade e a expectativa de cada indivíduo, e ficando atento também às possíveis reações colaterais. Tal como qualquer outro medicamento, o placebo pode provocar transtornos de humor, sono, alimentação; náuseas; fadiga, entre muitas outras reações indesejadas. Estas reações ocorrem quando o paciente tem uma expectativa negativa quanto ao tratamento, podendo surgir até mesmo antes que o remédio possa fazer qualquer efeito no organismo, pois sem saber que na maioria das vezes são necessárias cerca de duas horas para que qualquer medicamento revestido atue, os pacientes acabam acreditando que minutos depois de ingeri-los, já podem sentir seus efeitos. Porém, esta vertente do placebo, chamada efeito nocebo (do latim “nocere” significa provocar dano) é ignorada ou desconhecida por grande parte dos médicos.

Os placebos são classificados em inertes[3] (que são desprovidos de ação farmacológica ou cirúrgica) ou ativos[4] (que têm ação própria, mas não específica para a doença, ou administrado numa dose não terapêutica).

Como já foi comentado anteriormente, a medicina alternativa ou complementar é tida, por vários críticos da medicina tradicional (Ocidental), como um placebo. Apóiam-se no princípio de que seus procedimentos não são verificáveis em experimento científico. Os estudos já existentes sobre algumas dessas terapias são insuficientes para fazer qualquer comprovação, visto que suas variáveis não são controladas ou, até mesmo, pela dificuldade de conseguir amostras que se disponham a ser acompanhadas depois do tratamento.

Fato curioso que corrobora as críticas é que, entre 30% e 70% das pessoas respondem favoravelmente ao tratamento com placebos, e, mesmo sem ter sido descoberto a que isso se atribui, sabe-se que indivíduos responsivos ao placebo tendem a responder também positivamente às terapias alternativas. (STROUB, 2005).

O risco neste caso é o seguinte: as pessoas costumam procurar tais recursos depois de já terem se submetido aos tratamentos tradicionais e não terem conseguido resolver suas queixas. A medicina alternativa vem a ser uma opção de tratamento que oferece possibilidades de cura fazendo, na maioria das vezes, com que o paciente abandone o tratamento alopático – freqüentemente escondem do médico a existência de outro tipo de terapia – e jogue fora uma oportunidade de recuperar sua saúde. Esta saída pode se tornar ainda mais perigosa se administrada às mulheres grávidas.

Esta situação deveria preocupar os profissionais de saúde em geral, pois tal incompatibilidade não tem o menor sentido, visto que a definição mais atualizada de saúde compreende aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais. Sendo assim, há espaço para cada um, e estes profissionais, na condição de “cuidadores”, têm a responsabilidade de informar sobre as possibilidades de tratamentos associados sérios, que venham a complementar e aumentar as chances de cura e/ou bem estar, esclarecendo ao paciente que ele pode procurar outras formas de tratamento. Seria desumano dizer a um paciente em estado terminal de doença que luzes coloridas, injeções ou espetadas de agulha trariam de volta sua saúde, mas também não seria muito humano negar ao mesmo paciente a oportunidade de ter um pouco mais de qualidade de vida e de bem estar.

Auto-hemoterapia é uma técnica terapêutica alternativa que exemplifica este tipo de situação. Consiste na retirada de sangue venoso do braço e reinjeção do mesmo num músculo, que pode ser do outro braço ou nas nádegas. A explicação de quem defende a técnica é que, ao ser reinjetado, o “sangue doente” não seria reconhecido pelo próprio organismo, causando reação do sistema imunológico. Há quem diga que não passa de um charlatanismo e que seu sucesso se dê ao efeito placebo. Deve ficar claro que o problema não é ser efeito placebo, mas ludibriar pessoas com promessas que não serão cumpridas, roubando-lhe o direito de discernir o tratamento mais adequado. Há ainda a questão de que estas pessoas acreditam não haver perigo algum, mas autoridades médicas e governamentais advertem que esta técnica não tem fundamento nem comprovação científica e o Conselho Federal de Enfermagem esclarece que há risco de abscesso e até infecção generalizada no organismo. (CAMARGO, 2007).

Relativamente reconhecida pela comunidade médica, outra técnica que não tem explicação nem fundamentos científicos, com rigores padronizados de pesquisa é a acupuntura. Surgida na Idade do Bronze, na China antiga, trata-se de um sistema de cura fundamentado na premissa de que é necessária uma harmonia interna para que haja boa saúde. Sua sessão, diferentemente do convencional, começa com uma investigação detalhada da queixa do paciente, incluindo os mais variados aspectos de sua vida, tais como emocional, físico e ambiental. A partir daí é que surgem os pontos a serem trabalhados.

É pouco o que se sabe sobre como funciona a acupuntura. Há quem defenda que ela atua estimulando os nervos e desencadeando a liberação de endorfinas e/ou mudanças na resistência da pele, ou ainda, que a dor na inserção das agulhas distrai o paciente da dor original. Muitos médicos convencionais, até mesmo os que praticam acupuntura, atribuem o sucesso do tratamento ao efeito placebo, mas a verdade é que nenhuma das hipóteses consegue convencer por igual a todos os críticos estudiosos. (STROUB, 2005).

Os inúmeros efeitos sem rigor científico que as medicinas alternativa e complementar têm sobre os indivíduos, somados às respostas obtidas nos grupos controle dos testes duplo-cego intrigam cada vez mais os cientistas, que buscam incansavelmente a explicação para tais fenômenos. São incontáveis os estudos que visam explicar o efeito placebo, porém ainda não há nada de concreto. Desta forma, a comunidade científica permanece dividida até que uma teoria consiga convencer a todos, sem deixar margens de dúvidas.

São muitas as especulações a cerca do que justifica o efeito placebo. Há quem diga que é psicológico, que está atribuído à personalidade e perfil psicológico do paciente, à forte influência da crença no tratamento, às expectativas positivas que o paciente e/ou familiares têm e que o médico confirma, ou ainda, ao grau de sugestionabilidade[5]. O placebo age então, estimulando um poderoso mecanismo de autocura interior existente em cada ser humano e corroborando o fenômeno psiquê-corpo (CARROL, 2000, Internet). Desta forma, por mais que o paciente pense que está apenas seguindo instruções médicas, terá uma participação ativa em seu processo de cura. Porém, por mais que tudo isso interfira nos resultados, é preciso lembrar que nem sempre a pessoa que responde favoravelmente a um placebo numa determinada situação, responderá com o mesmo sucesso, obrigatoriamente, em outra, pois deve-se considerar sempre as realidades bio-psico-sócio-espiritual, que está constantemente em mudança.

 

As crenças e esperanças de uma pessoa sobre um tratamento, combinadas com sua sugestionabilidade, podem ter um efeito bioquímico significativo. Sabemos que as experiências sensoriais e pensamentos podem afetar a neuroquímica, e que o sistema neuroquímico do corpo afeta e é afetado por outros sistemas bioquímicos, inclusive hormonal e imunológico. Assim, há provavelmente uma boa dose de verdade na afirmação de que a atitude esperançosa e as crenças de uma pessoa são muito importantes para o seu bem estar físico e sua recuperação de lesões ou doenças. (CARROL, 2000, Internet).

 

Esta explicação é uma das mais aceitas no meio científico, embora quando informadas sobre o uso de placebos, as pessoas costumam se sentir mal, pois acreditam que o problema está na sua cabeça, que são culpadas e que na realidade não existe doença alguma. Falta nelas a consciência de que a mesma mente que facilita ou se omite num processo de adoecimento pode fazer movimentos contrários, sendo agente ativo no processo de cura. Porém esta tomada de consciência dificilmente ocorrerá sem que haja uma intervenção psicoterapêutica, pois tal comportamento, uma vez aprendido, torna-se inconsciente, passando na maioria das vezes despercebido.

Desta maneira, pode-se dizer que o processo de adoecimento trata-se também de um processo de aprendizagem, onde, inconscientemente, o indivíduo aprende que numa situação de debilidade será compensado por cuidados e carinhos, podendo fixar-se nestes ganhos e se “programar” para permanecer doente.

As pessoas que aferem algum lucro emocional com a doença, também não sentem melhora com o placebo, mas podem sentir seus efeitos colaterais. Essas pessoas costumam não melhorar nem com o placebo e nem com os medicamentos. Podemos dizer, de modo geral, que elas não têm interesse em sarar. (BALLONE, 2005, Internet).

Quando o assunto é mercado de trabalho as pessoas que aprendem a conseguir o “lucro emocional” com a doença comumente encontram-se empregadas em alguma empresa, já com relação aos profissionais autônomos, é mais difícil acontecer esse tipo de situação, como também os acidentes de trabalho, pois se de um lado eles têm algum lucro, do outro é puro prejuízo. (BALEEIRO; BALEEIRO, 2000, Internet).

O papel exercido pelo médico também é de grande importância, como verifica-se nos casos em que o paciente apresenta melhoras imediatas ao receber a visita do médico num quarto de hospital ou ao sair de uma consulta. A boa relação médico-paciente, em Psicologia, rapport, favorece enormemente o tratamento, pois considerando a carência proporcionada pela doença, o medo e a ansiedade, entre tantos outros sentimentos, a figura do médico torna-se uma representação de cuidado, carinho, atenção e cura do sofrimento.

Fator tão relevante quanto a crença do paciente é a crença e a esperança do médico no tratamento, na chance de cura do seu paciente, pois do contrário, por incrível que pareça, inconscientemente o paciente sente – possivelmente através da linguagem não verbal – que de nada está adiantando todo o esforço, como se seu caso fosse raro, de cura desconhecida, ou avançado demais para remediar. Isso ocorre nas terapias alternativas e complementares tanto quanto nas terapias convencionais, pois qualquer tratamento depende das intenções curativas do paciente e do médico.

Um caso ilustrativo acerca disso é o do doutor Albert Mason, psicanalista inglês que curou um jovem de uma doença considerada pela medicina como incurável. Em uma conversa com o colega responsável pelo garoto ele sugeriu que utilizasse a hipnose para curar suas “verrugas”. Ironicamente o colega retrucou que ele próprio o fizesse. O doutor Mason assumiu a responsabilidade pelo garoto e, como tinha sugerido antes, curou-o com a hipnose.

Somente quando mostrou o resultado de seu trabalho ao colega que desistiu do garoto, soube que não eram verrugas, mas Erythodermia Hithyosiforme congênita, uma patologia rara. Depois do sucesso com o jovem rapaz seu trabalho foi publicado em jornais e a notícia correu o mundo, então ele foi muito procurado pelas pessoas que portavam a mesma doença, mas o doutor Mason admitiu que por não acreditar que conseguiria a mesma façanha, tornou-se impossibilitado de ajudar a mais alguém.

A fé é verdadeiramente fator indispensável no tratamento com placebos, mas outro igualmente relevante é a maneira como se administram estes medicamentos. Aproveitando-se do vínculo desenvolvido, o médico pode fazer do ato de medicar um rito que, quanto mais tempo durar, mais cuidados recomendar e mais a respeito do remédio ele falar, melhores serão os resultados. Além disso, o tamanho do remédio, sua cor, sabor, dificuldade de encontrar, alto valor interferem na resposta ao tratamento, podendo influenciar o paciente a tal ponto, que poderá responder melhor a um placebo que a um remédio farmacologicamente ativo.

Outra opinião, ainda na tentativa de explicar o fenômeno efeito placebo, é que na realidade o que ocorre é que a natureza segue seu curso normal. O organismo por algum motivo sairia de seu estado de equilíbrio, fazendo um quadro de doença, e ele próprio, com seu mecanismo de homeostase, voltaria ao normal. Desta forma, o tempo seria indispensável no processo de cura. Contudo, as curas ou remissões espontâneas não são das teorias mais aceitas, pois observa-se nos indivíduos que não recebem cuidado algum, que sua recuperação não ocorre da mesma forma que nos casos em que o cuidado acontece nem que seja com placebos. Então, a limitação da ciência para explicar um fenômeno novo seria justificada pelo que chamam remissão espontânea.

Há cientistas que defendem a hipótese do efeito placebo se dar numa dimensão física, justificando-se nas mudanças físicas que ocorrem devido ao uso de placebos, que promovem saúde e/ou bem estar. A que se atribuem tais mudanças ainda não se sabe exatamente, mas acredita-se que a atenção, o carinho e o cuidado afetam o humor do paciente, disparando a liberação de endorfinas e dopaminas – substâncias mensageiras da motivação – diminuindo o estresse, a ansiedade e prevenindo o corpo das mudanças indesejadas.

As mudanças químico-físicas ocorridas com o uso de placebos questionam a hipótese a cerca da remissão espontânea, pois sem cuidado algum o indivíduo perde a chance de estimular dopaminas e ter uma motivação a mais para a cura. As mudanças decorrentes do placebo chegam a proporções comparáveis àquelas que decorrem das anfetaminas e, além disso, outra promessa do placebo é a produção de endorfinas, que são analgésicos naturais.

A aprendizagem por reflexo condicionado é uma das teorias que pode explicar o efeito placebo. Os adeptos deste pensamento partem do princípio de que parte dos comportamentos de adoecer e de curar é aprendida ao longo da vida.

Ivan Pavlov, fisiologista Russo descobriu este tipo de aprendizagem e a estudou exaustivamente. Trata-se de um processo de aprendizagem em que um estímulo anteriormente neutro torna-se associado a outro estímulo através da repetida união com aquele estímulo. Assim, para condicionar um cachorro, é associada uma campainha à hora da alimentação repetidas vezes e, chegará o momento em que o cão começará a salivar antes mesmo de ver a comida, mas apenas ouvindo o som da campainha (ATKINSON et al., 2002).

O que dizem os estudiosos é que, ainda crianças, as pessoas percebem que sempre que adoecem recebem cuidados, visitas de médicos vestidos de branco, tomam remédios, fazem repouso, e depois de passado todo este processo, percebem sua saúde recuperada. É como se os pacientes estivessem tão condicionados a serem curados ao receber os cuidados médicos quanto os cachorrinhos de Pavlov à campainha.

Chegamos, então, a uma explicação fisiológica bastante convincente sobre o efeito placebo: trata-se de um efeito orgânico causado no paciente pelo condicionamento pavloviano ao nível dos estímulos abstratos e simbólicos. (AMARAL; SABBATINI, 1999, Internet).

Desta forma, o que interessa no processo de cura, muito mais que remédios, são as experiências que o indivíduo já viveu e que ficaram registradas em seu sistema nervoso, podendo favorecer ou atrapalhar o mesmo processo, a depender também das expectativas que ele tem em mente.

Os objetivos do uso do placebo na área médica são, principalmente, as pesquisas a cerca da eficácia de novos fármacos por meio de comparações, o que possibilitou ampliar o conhecimento a cerca de seus efeitos. Nestes testes administra-se a um grupo a substância que se quer verificar, e a um outro, os placebos. Porém nem médicos nem pacientes sabem distinguir os grupos, para que sejam minimizados os riscos de manipulação. Somente um único experimentador tem esse conhecimento. Esta pesquisa, chamada de teste duplo-cego, tem sucesso quando os resultados do primeiro grupo superam de maneira relevante os resultados do segundo.

De acordo com a Food and Drug Administration (FDA – órgão americano responsável pela liberação de fármacos e alimentos no mercado consumidor) os grupos controle destas pesquisas estão classificados em cinco tipos: placebo concorrente, tratamento ativo concorrente, nenhum tratamento concorrente, comparação de dose concorrente e externo. O grupo controle a ser escolhido deve ser o que oferece menor risco aos participantes e melhor responde ao questionamento científico. O placebo concorrente é considerado padrão-ouro nas pesquisas por ser o que melhor se encaixa aos critérios de escolha, desde que não ofereça riscos, mas apenas desconforto aos pacientes. (MARQUES, 2000, Internet).

O uso dos placebos deve passar por critérios de segurança para a saúde do paciente, devendo ficar restrito aos casos em que o tratamento mais indicado encontra-se indisponível, afim de que o paciente não fique sem nenhum cuidado, ou em casos em que o tratamento não tenha sido descoberto. Pode ainda ser utilizado em pesquisas científicas, assegurando ao sujeito o risco de não melhorar, de retardar o tratamento já reconhecido ou até mesmo de piorar o seu estado de saúde.

Os controles com o placebo [...] só são admissíveis quando as taxas de resposta ao placebo são altas, variáveis ou próximas às taxas de resposta para as terapias efetivas. Além disso, o placebo poderia também ser utilizado quando as intervenções estabelecidas trazem grande risco de efeitos colaterais ou são efetivas apenas contra certos sintomas do distúrbio em tratamento. (MARQUES, 2000, Internet).

Fica claro que as exceções estão restritas às situações em que o tratamento disponível ainda não se considera “comprovado” (porque sem considerável diferença em relação ao placebo) ou como o “melhor disponível” (porque com efeitos colaterais proibitivos ou sem a abrangência de toda a enfermidade).

O efeito placebo mostra que a resposta a um determinado tratamento depende muito das expectativas do médico e, principalmente, do paciente, pois a mente atua sobre o corpo provocando sintomas e/ou a própria cura, aferindo assim, um componente psicológico investido no processo de adoecer. Mas resta ainda descobrir um meio de poder utilizá-lo sem que seja necessário mentir para o paciente, pois quando o placebo for aceito como remédio de verdade, o seu uso poderá ser encarado como um dos melhores tratamentos de integração corpo e mente e, além disso, os pacientes não passarão por constrangimento algum por terem sido curados com placebos.

O efeito placebo ainda traz consigo muitos mistérios, mas mesmo assim já há quem admita ser uma ótima opção de tratamento, visto que proporciona tantos benefícios ao paciente, dentre eles, diminuição do custo do tratamento; permite ao paciente ser poupado da química dos medicamentos que, até ser encontrada a dose adequada, poderá submetê-lo a efeitos indesejáveis ou adiar o tão sonhado bem-estar; delega ao paciente o controle de sua própria cura. Pode livrá-lo ainda de reações alérgicas e restrições por incompatibilidade de substâncias, e também dos riscos de um procedimento cirúrgico convencional, já que os únicos agentes ativos que compõem o placebo são as expectativas, acrescidas de boas doses de atenção, carinho, cuidado e afeto, entre outros componentes igualmente subjetivos.

Para que o tratamento seja, de fato, bem sucedido, o médico deverá se empenhar tanto quanto possível no desenvolvimento de um bom relacionamento com seu paciente, lembrando que sua tarefa é tratar, mais que uma doença, um ser humano que padece.

Muitas têm sido as pesquisas acerca do placebo, do nocebo e seus efeitos, mas suas respostas ainda não apresentam nenhuma solidez. Divergem enormemente umas das outras, mas no final todas confirmam que o efeito placebo é um fenômeno poderoso, que só tem a enriquecer ainda mais a ciência com suas tão curiosas nuances, permitindo uma opção a mais de tratamento para quem muitas vezes já perdeu as esperanças.

É unânime no meio científico o interesse em explicar como se dá o processo de mudança no organismo por meio do uso de placebos. Porém, a incógnita permanece dando margens às mais variadas respostas, dividindo as opiniões, provavelmente, com critérios de afinidade com as teorias. A estas últimas falta reconhecer a dimensão holística do conceito de saúde, de maneira a se ocupar em descobrir o elo que o efeito placebo faz encontrou para atuar, simultaneamente, nos aspectos bio-psico-socio-espiritual. Assim, quem sabe daqui a alguns anos, seja noticiado que o placebo é a última palavra nos tratamentos das mais variadas patologias.

 

 NOTAS EXPLICATIVAS

 

[1] Artigo extraído da monografia apresentada e aprovada em Julho/2007, no Curso de Psicologia da FCH/CESMAC, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Psicologia.

[2] Placebo é qualquer tratamento que não tem ação específica nos sintomas ou doenças do paciente, mas que, de qualquer forma, pode causar um efeito no paciente. (AMARAL; SABBATINI, 1999).

[3] Exemplos de placebos inertes: pílulas de farinha ou açúcar, normalmente coloridas; ou água destilada.

[4] Exemplos de placebos ativos: substância com propriedade farmacológica, porém em dosagem não terapêutica; substância com propriedade farmacológica indicada para patologia diferente da que está sendo utilizada (como usar aspirina para dor de barriga).

[5] É tão grande o poder da auto-sugestão que se em uma pesquisa clínica um grupo é informado sobre a possibilidade de estar tomando placebos, o valor do próprio  medicamento a ser testado pode diminuir consideravelmente.

 

 

REFERÊNCIAS

 

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